Do Amor Universal

Bhagavad-Gita (séc.I a. C.)

Fala Arjuna:

Servir-te Senhor, como Deus Único, Manifesto,

ou servir-te como o Único, Imanifesto, Eterno e Universal?

Qual o melhor caminho para os fiéis?

Fala Krishna:

Aquele que, com fé firme, adora-me em seu coração,

simplesmente como pode compreender-me,

esse me é querido e santo.

Mas quem me compreende como o Eterno, o Anônimo,

o Imanifesto, o Inconcebível, o Supremo,

não limitado de forma alguma,

o Infinito,

quem me adora desse modo e, contudo, vê a minha presença

em todos os seres

e, praticando o bem,

vive alegremente,

esse acabará por se unir a mim.

Entretanto, difícil é este caminho

para os que procuram encontrar o Imanifesto

por meio de um amor afetivo.

Difícil é este caminho

para os que vivem ainda em um corpo carnal.

Mas quem, de coração puro, se voltar para mim

e em meu nome fizer tudo quanto costuma fazer,

quem renunciar a si mesmo

e dia e noite, firmado em mim,

me servir,

esse será salvo por mim do tempestuoso mar da existência,

desse inconstante mundo do nascer e do morrer,

porque buscou refúgio em mim.

Por isto, volve para Mim teu coração,

apreende-me com toda a tua vontade,

repousa em mim o teu espírito

e encontra em mim a tua felicidade.

Mas,

se não fores capaz de me atingir em tão grande altura,

se tua mente te levar às baixadas,

filho da terra,

por seres fraco demais para esta doação total,

então,

procura seguir o caminho menos árduo do amor afetivo

Se nem deste amor fores capaz,

adora-me com tuas atividades.

Se só a mim dedicares as tuas atividades,

também atingirás a meta da perfeição.

Se mesmo disto fores incapaz,

refugia-te em mim,

renunciando aos frutos do teu trabalho

e serve-me com perfeita humildade.

Verdade é que o saber espiritual

é maior que o fazer material,

porém,

maior que ambos é o amor integral

e isto requer total desapego.

Quem a tudo renuncia por amor

está perto da meta final.

Quem não quer mal a ser algum

e, liberto do ódio e do egoísmo,

é bom para com todas as criaturas,

quem a tudo renuncia por amor

está perto da meta final.

Quem permanece fiel a si mesmo,

no prazer e no sofrimento,

sempre sereno e paciente,

quem tem fé em mim e vontade reta,

quem controla o coração

e mantém a mente fixa em mim,

e se consagra inteiramente a mim,

com reverência e amor,

esse é querido por mim.

Quem a ninguém ofende neste mundo,

nem se sente ofendido por ninguém,

mas paira acima do gozo e da dor,

liberto da cólera e do temor,

esse é querido por mim.

Quem é sereno e equilibrado,

diante do amigo e do inimigo,

imperturbável diante dos elogios e das ofensas,

do calor e do frio,

da alegria e do sofrimento,

livre de toda escravidão,

esse é amado por mim.

Porém

o mais querido de todos

é aquele que me ama acima de tudo,

aquele cuja vida é amor,

a esse amo acima de tudo

e o alimento com o meu amor.”

Do livro: As Mais Belas Orações de Todos os Tempos. São Paulo, Pensamento, 2006.

Gnosticismo

A progressiva divulgação no mundo romano, a partir do séc I da era cristã, de doutrinas religiosas orientais – dentre as quais o cristianismo não foi a primeira, e sim mais uma – e o apogeu de uma série de escolas filosóficas helenísticas de perfil acentuadamente místico, como o neopitagorismo e o neoplatonismo, estabeleceram o clima espiritual em que brotaram as concepções gnósticas.

A palavra gnose (do grego gnosis, “conhecimento”) emprega-se, ao se tratar do movimento filosófico e religioso a que deu nome, para designar o conhecimento adquirido não por aprendizagem ou observação empírica, mas por revelação divina. À gnose, privilégio dos iniciados, opõe-se a pistis, ou mera crença. Os eleitos que recebiam a gnose experimentavam uma iluminação que era regeneração e divinização, e conheciam simultâneamente sua natureza e origem. Reconheciam-se em Deus, conheciam a Deus e apareciam diante de si mesmos como emanados de Deus e estranhos ao mundo. Assim adquiriam a certeza definitiva de sua salvação para toda a eternidade.

Até a descoberta, no século XX, de diversas coleções de manuscritos, entre os quais os de Nag Hammadi, Egito, era comum considerar o gnosticismo como uma forma de heresia cristã inspirada na filosofia grega. Atualmente, tende-se a falar num conjunto de escolas que, em virtude de princípios comuns, formam o movimento gnóstico. As noções compartilhadas pelas diversas escolas gnósticas podem resumir-se em três grandes temas: (1) a miséria do homem, prisioneiro do seu corpo, pois o gnóstico considerava a alma procedente de uma realidade supramundana; (2) a dualidade cósmica, na qual o mundo visível, mau e tenebroso, teria sido criado por um demiurgo perverso – elemento tipicamente neoplatônico – oposto a outro  Deus, bom mas desconhecido; e (3) o apocalipse gnóstico, em virtude do qual o mundo perverso seria substituído pelo reino divino. Os pneumáticos (conhecedores puros da gnose) ascenderiam até o pleroma, reino da luz e da perfeição, e o fogo latente oculto no cosmos se avivaria e consumiria toda a matéria.

As escolas gnósticas empregaram diferentes métodos de especulação. A maior parte dos estudiosos tende a considerar a existência de uma gnose não cristã , que englobaria movimentos como o hermetismo e o maniqueísmo e de uma gnose cristã, herética. Esta última, formulada no século II por Basilides e Valentim, afirmava a realidade de um Deus transcendente e desconhecido, enquanto identificava o demiurgo criador do mundo físico com o Iavé bíblico. Os ataques a esse tese por parte dos teólogos cristãos dos séculos II e III, como Hipólito e santo Irineu, fizeram com que o gnosticismo tenha sido considerado um desvio do cristianismo.

Por fim, alguns autores opinam que as teses enunciadas por Orígenes de Alexandria (séculos II e III), segundo as quais o objetivo da encarnação e morte de Jesus teria sido trazer o conhecimento ao homem enganado por seus sentidos, constituiríam na realidade uma tentativa de assimilar a gnose à ortodoxia cristã.

Fonte: Enciclopédia Barsa

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