“O Cristianismo é a religião que mais fortemente caracteriza a sociedade ocidental. Há dois mil anos permeia a história, a literatura, a filosofia, a arte e a arquitetura da Europa. Assim, conhecer o Cristianismo é pré-requisito para compreender a sociedade e a cultura em que vivemos.A Bíblia é o livro mais lido do mundo, hoje e em toda história humana. Nenhum outro livro teve maior influência literária. Até mesmo escritores não cristãos reconheceram a Bíblia como sua fonte de inspiração mais importante.
A VISÃO CRISTÃ DA HUMANIDADE
Os seguintes pontos têm importância na visão cristã do ser humano:
A POSIÇÃO DE DESTAQUE DO SER HUMANO
Por um lado, as histórias da criação realçam os vínculos do homem com o restante da criação. “Então Iahweh Deus modelou o homem com a argila do solo, insuflou em suas narinas un halito de vida e 0 homem se tornou um ser vivente” (Genesis 2,7). 0 lado natural do homem também é expresso no jogo de palavras, no original hebraico, entre adam (homem) e adama (terra). 0 homem é formado do mesmo material que as plantas e os animais. Somos feitos de pó e ao pó retornaremos. Por outro lado, 0 homem foi feito senhor da criação. Pode-se dizer que 0 ser humano é um ser orgânico e, ao mesmo tempo, é também algo mais.
O HOMEM FOI CRIADO À IMAGEM DE DEUS
A expressao “criado à imagem de Deus” destaca a ideia de que o homem tem um lugar especial na criação. É claro que o homem tem seu lugar na ordem natural geral, mas sendo a Última coisa que Deus criou, ele tem dotes especiais e uma tarefa específica que o diferencia de todas as outras coisas criadas. Diz-se comumente que Deus criou o homem por amor – a fim de compartilhar o mundo com ele. Pois o homem não é apenas uma coisa viva, como as outras coisas vivas. 0 homem é uma pessoa, um indivíduo.
A idéia de que o homem foi criado à imagem de Deus também implica que ele foi feito para viver em harmonia com seu criador. Ele foi dotado da capacidade de experimentar o sagrado e de participar de atos de adoração divina.
O SER HUMANO É UM SER SOCIAL
O ser humano não foi criado apenas para viver com Deus; nós também fomos feitos para existir em comunhão uns com os outros. Tanto o Antigo como o Novo Testamento ressaltam que devemos amar uns aos outros assim como Deus nos amou. As duas histórias da criação, cada uma a sua maneira, também destacam a idéia de que Deus nos criou como homem e mulher. Podemos dizer que o casamento e a família são parte da criação. Por isso, muitas igrejas cristãs vêem o casamento como uma instituição sagrada.
O SER HUMANO TEM LIVRE-ARBÍTRIO
Outro dom do homem é distinguir entre o certo e o errado. Uma das ideias fundamentais da Biblia é que o homem é responsável por suas ações. O homem é capaz de ir contra a vontade de Deus. Podemos abusar da posição especial que Deus nos deu. A Bíblia chama a isso de pecado.
O DEUS DO AMOR
O principal comentário da Bíblia acerca de Deus é que Ele é “amor”. Essa não é uma descrição de uma entre outras características de Deus, mas uma sua qualificação geral. Tudo que a fé cristã pode dizer a respeito de Deus sao variações em torno desse grande tema. A Bíblia também destaca que é impossível para o ser humano conhecer a Deus ou amar a Deus se não nos amamos uns aos outros. Pois Deus é amor.
Todos nós sabemos que a palavra amor tern conotações distintas. Para compreender o que a Bíblia está afirmando quando diz que Deus é amor, pode ser útil saber qual o uso dessa expressão na língua original do Novo Testamento, o grego. Em grego há duas palavras que podem ser traduzidas pela palavra amar: eros e agape. Eros pode ser traduzido como “querer” ou “desejar”. O filósofo grego Platão (400 a. c.) usa a palavra ao falar do desejo que o homem tem da beleza, da excelência, do conhecimento e da eternidade. Para plantão eros era um anseio inerente á humanidade. Ele expressa a origem elevada da alma, manifestando-se nos seres humanos como uma necessidade irresistível de partir em jornada rumo à pátria celestial. Eros é o anseio que sente o homem, esse ser transitório, pela eternidade. Podemos dizer que essa palavra descreve o amor que o homem tem pelas coisas que vale a pena amar, ou seja, pelas coisas valiosas. (Hoje em dia as palavras eros e erótico são usadas com um sentido mais restrito do que na filosofia platônica, isto é, no sentido do amor sexual.)
De certa forma, a palavra agape significa quase o oposto de eros. No Novo Testamento, a palavra é usada para designar o amor misericordioso e devotado de Deus pelo ser humano. Pois o amor de Deus é espontâneo e se auto-sacrifica sem pensar se a humanidade o “merece”. Ele não emana da carência, mas da abundância, e também é dado em abundância àqueles que nãome’recem amor nem são dignos de amor. Nesse contexto, o amor de Deus é um modelo para a caridade cristã. Os primeiros cristãos usavam a palavra agape para designar suas refeições comunitárias que terminavam com uma comunhão.
QUEM FOI JESUS?
Talvez ninguém tenha exercido tanta influência na história mundial como Jesus de Nazaré. A questão de saber quem foi Jesus vem intrigando a cultura ocidental por 2 mil anos.
Foi ele um visionario religioso? Ou um homem pio que queria ensinar a seus companheiros como viver? Pode ele ser comparado com os muitos judeus seus contemporâneos que estavam se apresentando como o nprometido Messias? Ou é ele Filho de Deus e salvador da humanidade?
Podemos abordar tais questões lendo as narrativas bíblicas sobre Jesus e estudando a época em que ele viveu. Mas as respostas que encontraremos serão baseadas na fé. É a fé na ressurreição do Filho de Deus que constitui a pedra fundamental do cristianismo. Contudo, há poucos historiadores modernos que discordam da afirmação de que Jesus de fato existiu. Histórias que foram escritas nos dois primeiros séculos após a morte de Jesus (como as do historiador judeu Flávio Josefo, e dos historiadores romanos Tácito e Suetônio) contém breves comentários sobre ele. Jesus não é um personagem de ficção.
JESUS DE NAZARÉ (c. 6 A. C. – 30 D. C.)
Jesus nasceu antes da morte de Herodes, o Grande, provavelmenteno ana romano de 749. Quando nosso calendário atual foi introduzido, acreditava-se que Jesus tinha nascido em 754; temos aí, portanto, uma discrepância cronológica de pelo meno cinco anos.
Jesus era um judeu, e na época de sua juventude o reino judaico estava sob o controle direto de um oficial do Império Romano. Jesus se tornou um profeta itinerante, baseando suas idéias nas escrituras judaicas. Mas logo ficou claro que ele estava formulando uma doutrina independente, pois com frequência dizia coisas como: “Vós aprendestes o que foi dito a vossos antepassados… Eu, porém, vos digo…”.
No ano 29 ou 30 de nosso calendário, Jesus foi acusado de blasfemia por um tribunal religioso judaico. Urn alto funcionário romano, Poncio Pilatos, atendeu ao apelo dos anciãos judeus e sentenciou Jesus a morte, executando-o por crucificação.
O JESUS DA HISTORIA
Em razão de uma serie de discrepancias entre os evangelhos, é quase impossivel pintar urn retrato biográfico detalhado de Jesus. Os evangelhos nos mostram, na verdade, como a Igreja cristã compreende Jesus.
Os evangelhos estao permeados com a crençaa de que Jesus é o Messias prometido pelo Antigo Testamento. O objetivo dos evangelhos não era o de fazer um documento histórico, mas proclamar a mensagem da salvação conhecida como Boa Nova e concretizada na pessoa de Jesus Cristo através de seu nascimento, vida, pregação, morte e ressurreição.
0 que importa na maneira como os evangelhos falam sobre Jesus não é que ele morreu na cruz, mas por que ele morreu. É fundamental manter a distinção entre os evangelhos e a ciência histórica. Os historiadores, empregando metodos cientificos, podem dizer que Jesus foi provavelmente urn homem que insistia em ser investido de autoridade divina, e que mais tarde houve urn grupo de pessoas que acreditaram que ele ressuscitou.
Os evangelhos e a Igreja, por sua vez, proclamam que Jesus de fato tinha autoridade divina e que de fato ressuscitou. Ninguém pode justificar a fé crista ou qualquer fé que seja por meios cientificos, nem refutá-la com base nesses metodos.
O MESSIAS, FlLHO DO HOMEM, FILHO DE DEUS
E o verbo se fez carne. João 1,14
O Novo Testamento é pródigo em títulos para Jesus. Titulos que se originam no judaísmo e na história de Israel, mas encontram urn novo significado no cristianismo.
O MESSIAS
A palavra Messias significa, na verdade, “o ungido”, uma referência à maneira como o rei de Israel era ungido com óleo ao subir ao trono. Portanto, essa palavra era um título majestático. Depois da época dos reis Davi e Salomão, Israel entrou em declinio, mas os judeus continuaram a acreditar e a ter esperança de que algum dia haveria de chegar um novo Messias, um novo rei da linhagem de Davi. . .
A tradução grega da palavra Messias é Christos. Assim, originalmente o nome Jesus Cristo é um reconhecimento de que Jesus é o prometido messias. Embora, segundo os evangelhos, em várias ocasiões Jesus tenha admitido ser o Messias, há provas de que ele não usava esse título para falar de si mesmo. Ainda que possa ter aparecido como Messias para seus discípulos, é muito pouco provável que tivesse se referido a si mesm.o dessa maneira em público, decerto porque não queria ser visto como o libertador político de seu pais.
O FILHO DO HOMEM
O tíutulo usado com mais frequencia por Jesus era Filho do Homem. Esse título também é tomado do Antigo Testamento, onde se referia ao salvador que os judeus esperavam que fosse enviado por Deus. Em oposição à coloração nacionalista e política do Messias, o Filho do Homem era uma figura celestIal que haveria de chegar “envolto em nuvens do ceu” para salvar os justos. 0 fato de que Jesus chamasse a si mesmo de Filho do Homem indica que ele se considerava um ser divino.
Segundo os evangelhos, Jesus relacionava a ideia de Filho do Homem com as profecias de Isaias sobre o
“servo sofredor”, que ao assumir o sofrimento para si, haveria de restaurar o relacionamento deterioriorado entre Javé e seu povo.
O FILHO DE DEUS
Em diversos trechos do Novo Testamento Jesus é chamado de Filho de Deus. A maneira exata como Jesus é chamado de Filho de Deus. A maneira exata como Jesus considerava esse relacionamento filial é um tópico muito discutido. Mas, decerto, tudo indica que Jesus acreditava ter uma associação especial com Deus. Seu uso da palavra hebraica aba, ou “pai”, não tem paralelo nos círculos judaicos na época de Jesus.
Jesus se refere a si mesmo como Filho, ou Filho de Deus, em particular no evangelho de São João. É bem claro que aqui esse nome tenciona conotar a unidade entre Jesus e Deus. Numa passagem Jesus se expressa deste modo: “Eu e o Pai Somos Um” (Jõao 10,30). A idéia é que Jesus veio ao mundo para revelar Deus aos homens: “Quem me vê, vê o Pai” (João 14,9).”
Fonte: O livro das Religiões de Jostein Gaarder